Pedro Novaes

O autor é engenheiro agrônomo e advogado

Realidade próxima

domingo, 26 de maio de 2019 por Pedro Novaes

A atual crise por que passa o país revela, em corpo inteiro, o senso de responsabilidade e a capacidade administrativa de nossos parlamentares e executivos.
Inventar despesas, e lança-las aos cofres públicos, não é difícil. O difícil é manter eficientes os serviços públicos e ser rigoroso na seleção e atendimento de prioridades.
Diversos estados e municípios, com administrações corrompidas ou primárias, já passaram pela impossibilidade de pagar pontualmente salários e pensões, além do sucateamento das unidades de ensino e saúde. A realidade orçamentária sempre fala mais alto que discursos e promessas.
Câmaras de vereadores e assembleias, mesmo quando aparentemente renovadas, seguem elevando subsídios, aumentando o número de servidores e disponibilizando crescente estrutura aos parlamentares. Na maioria dos municípios, a vereança acabou transformada em profissão.
A maioria de nossos vereadores limita a atuação ao comparecimento às sessões, em nada fiscalizando o poder Executivo ou aprimorando leis e regulamentos. Os raros edis que miram com lupa os atos e gastos do Executivo, acompanhando a efetividade com que são prestados os serviços à população, acabam sofrendo represálias que, não raro, envolvem a própria vida familiar, além da omissão da mídia.
Por todo o país, em todos os níveis, uma multidão de comissionados foi nomeada em desacordo com os ditames da Constituição, que prevê necessidade de competência técnica ou cargo de chefia. Comissionados, não raro, são escolhidos no altar dos amigos e simpatizantes.
Presidente, governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores, não precisam locomover-se em Mercedes esportivas, nem em Kombis 1985. O problema é que os veículos que servem ao cidadão comum raramente servem a nossas sofisticadas autoridades.
Gastos supérfluos e pouco prioritários persistem, apesar da crise que sucateia hospitais e postos de saúde. Festas e inaugurações são programadas e repetidas, como se habitássemos o paraíso.
Autoridades reclamam da destinação inadequada do lixo, mas é possível caminhar quilômetros sem encontrar qualquer lixeira. Poucos municípios dispõem de estruturas para recebimento de resíduos sólidos, geralmente só efetuados quando patrocinados pela TV local.
Terrenos públicos persistem como fontes de vetores, e prédios inteiros funcionam sem o alvará do Corpo de Bombeiros. Festas oficiais revogam todo nosso ordenamento legal, e deixam multidões à mercê de sons absurdamente altos e desrespeitadores, madrugada afora, a exemplo do ocorrido recentemente em Itapetininga (SP).
A população eleitora persiste centrando críticas em deputados e senadores, e votando em candidatos a vereador dos quais bem conhece os defeitos e incapacidades. As críticas do dia a dia, por comodidade ou conveniência, sempre miram alvos distantes.
O Brasil segue sendo perdulário e irresponsável, com administrações e parlamentos que mais parecem piadas de mau gosto. Por aqui, discursos e promessas ainda valem mais que a própria história.