Pedro Novaes

O autor é engenheiro agrônomo e advogado

Frio

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018 por Pedro Novaes

Após um período de severa estiagem e calor infernal, seguido por dezenas de dias chuvosos, estamos agora sob frio intenso, antes de iniciado o inverno.
Mesmo sem o apoio de estatísticas científicas, todos percebemos que a natureza está tendo chiliques. Ou faz um calor insuportável ou um frio congelante. Ou sofremos uma seca prolongada ou morremos afogados.
A natureza jamais foi domada, e seguiu por séculos repetindo eventos catastróficos, entremeados por outros que produziram fartura e progresso. Atualmente, os eventos tendem a ser exagerados, e até em épocas impróprias.
A principal vítima das surpresas climáticas é a agricultura, cujos calendários obedecem rígidos critérios técnicos, de maneira a adequar as necessidades das plantas à normalidade dos eventos do clima. Excesso de chuva, estiagem, calor ou frio, imprevistos, dizimam plantações e causam prejuízos a toda a sociedade, podendo levar agricultores à insolvência.
Também a pecuária sofre as adversidades do clima, seja pela indisponibilidade de pastagens ou pela maior custo de rações. Os reflexos mais visíveis aparecem, assustadores, nas prateleiras dos supermercados.
Indústrias de agasalhos, aquecedores, ventiladores e até remédios não conseguem atender clamores do comércio, para suprir a repentina escalada da procura de atenuantes dos chiliques climáticos.
Pesquisas realizadas por cientistas de renome, em Piraju (SP), indicam severa diminuição no consumo de água, nos invernos rígidos. Dizem, as más línguas, que o frio intenso prejudica o acionamento dos chuveiros.
Por todo o estado, a população parece mais gorda, como resultado da manutenção dos pijamas, sob a roupa de trabalho ou passeio. No ambiente doméstico, cobertores são preferidos aos agasalhos.
O IBGE não confirma, mas existe uma notória diminuição dos nascimentos, nove meses após um frio congelante. Feijoada, polenta e toicinho viram pratos da época, pela fama de quentes.
O lado triste dos invernos é o sofrimento das populações de rua, não raro sobreviventes graças à atuação de abnegados voluntários. Em 2.016, as ações dos poderes públicos, prestigiando a coleta e doação de cobertores e agasalhos, vieram antes de terminado o inverno.
Idosos e crianças apresentam menor resistência ao frio, necessitando de cuidados e acompanhamentos especiais. Até ladrões recuam nos períodos mais gelados, pois as famílias evitam sair, permanecendo nas casas.
Cães e gatos, os mais ricos, usam vestimentas apropriadas ao inverno, enquanto os remediados dormem sobre panos, colocados ao abrigo dos ventos. Animais de rua buscam refúgio na vegetação, sob carros ou em cantos urbanos.
Passam imunes ao frio a corrupção e os desmandos administrativos, frequentadores de ambientes controlados. Não acreditamos que, sob temperaturas negativas, nossos presidiários persistam sem acesso a águas aquecidas. Tal tortura não consta das sentenças condenatórias.

 
 
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