Moyses Moreira Lopes

Moyses Moreira Lopes

O Estupro

terça-feira, 23 de outubro de 2018 por Moyses Moreira Lopes

Ingressei no Seminário, quando deixava a infância e entrava na puberdade. Ia fazer o Ginásio, que no Seminário recebia o nome de Curso Propedêutico. Era o Seminário Menor, como era chamado em outras instituições cristãs. Estudei todas as disciplinas do Ginásio e, além disso, várias religiosas, pois o regime era de internato. Estudei as doutrinas cristãs, tendo como base um livro, assinado pelo teólogo T.P.Simmons. No quarto capítulo, tratava das Objeções à Inspiração Verbal das Escrituras. Ficava encantado com as objeções respondidas. Uma delas era que na Bíblia há capítulos obscenos, portanto não pode ser um livro inspirado por Deus. R.A. Torrey, teólogo famoso na época, disse: “Falar do pecado nos termos mais claros, mesmo do pecado mais vil, para expor sua asquerosidade e para retratar o homem como ele realmente é, não é obscenidade: é pureza numa de suas formas mais elevadas… Se se conta uma história para fazer-se caçoada do pecado ou para coonestar e desculpar o pecado é obscena. Se é contada para fazerem os homens odiarem o pecado, para mostrar a sua hediondez, para induzir os homens a darem ao pecado tão vasto desprezo, quanto possível e mostrar aos homens sua carência de redenção, não é obscena: é moralmente salutar.”
Na Bíblia há um relato de estupro na casa real de Davi. O rei possuía várias mulheres e, com elas, vários filhos. Tamar era uma princesa, filha de Davi com Maaca, irmão de Absalão. Maaca era filha de Talmai, rei de Gesur. O filho primogênito de Davi era Amnon, filho de Ainoã, a Jezrrelita. Amnon crescera vendo a beleza que se desabrochava na sua irmã Tamar. Ela era linda e como era linda! Os seus olhos, como diziam os poetas da época, eram como os das pombas. A sua voz era doce e mais doce do que os frutos da tamareira. O seu andar era um marchar das éguas dos carros de Faraó. Os seus cabelos eram como o rebanho de cabras que descem ondeantes do monte de Gileade. Os seus lábios eram como um fio de escarlata e, as suas faces, como romã partida. O seu pescoço era como a torre de Davi e os seus seios como duas crias gêmeas de uma gazela. Os escritores usavam, assim, tais figuras poéticas no tempo de Tamar, a princesa. (Ct. 4) Ela era, em suma, a beleza personificada, herdeira do rei de Gesur, pai de Maaca, sua mãe.
Amnom se enamorou dela e longe de seus olhos, ficou doente e, como ela era virgem, parecia-lhe impossível fazer-lhe coisa alguma, como afirmou o historiador e o seu biógrafo. Jonadabe, homem sagaz, filho de Siméia, irmão de Davi, vendo-o triste e amargurado, disse-lhe: - “Deita-te na tua cama e finge-te doente; quando teu pai vier visitar-te, dize-lhe: Peço-te que minha irmã Tamar venha e me dê de comer pão, pois só em vê-la, sararei.” O rei Davi foi enganado e pediu para que a princesa fosse visitá-lo.
O filho primogênito do rei obedeceu aos conselhos diabólicos de seu primo. Quando ela veio e fez bolos diante dele e os cozeu, tomou a assadeira e foi servi-lo. Ele, que continuava fingindo, pediu para que todos se retirassem e foi e deitou-se no seu leito, na câmara. Logo que se viu sozinho, estando presente só a sua irmã, agarrou-a, estuprando-a. Consumado o ato, sentiu uma grande aversão por ela e maior era a aversão do que o amor que lhe votara. (II Sm. 13:15)
Amnom cavou com as suas próprias mãos a sua sepultura, pois foi assassinado por Absalão, irmão legítimo de Tamar, tanto por parte materna como paterna, pecou contra Deus e contra a sociedade e, acima de tudo, destruiu o sonho de uma virgem, dividiu a família e fez surgir o crime do incesto e o fratricídio.
Davi, seu pai, muitos anos depois, numa poesia, disse: “Ó Deus, um abismo chama outro abismo, ao fragor das tuas catadupas.” (Sl. 42:7)

 
 
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