Alberto Isaac

Alberto Isaac é jornalista professor e comerciante. Durante quarenta e cinco anos foi o correspondente do jornal “O Estado de São Paulo” em nossa região.

Ah! se as ruas falassem

domingo, 16 de junho de 2019 por Alberto Isaac

Caso alguma entidade divina, ou um outro meio poderoso, houvesse por bem dotar da utilíssima voz a qualquer rua desta cidade, talvez narrasse, como em uma novela ou série de tv, o que faria o ser humano quando em transito por ela.
São centenas de milhões de passos, rápidos ou cadenciados, que ressoam todos os dias e que ecoam nas diversas calçadas. Muitas, como antigamente, sem calçamento ou dotadas com pedras coloridas e também paralelepípedos, pisos sofisticados, ou asfaltadas, caso elas pudessem se expressar, repassariam histórias belíssimas ou acontecimentos escabrosos, como as intimidades das pessoas, que transitam por ela, em seu leito ou em suas calçadas.
Ouviriam queixas e confissões profundas de casais estabilizados, ou jovens, empresários, simples comerciantes, ou pessoas marginalizadas ou personalidades de renome, além de grupos gritando desvairadamente sem nenhuma razão.
Clamariam pelo tropel de carroças (poucas, mas ainda existentes) ou dos milhares de veículos de todas as espécies – ônibus, carros de passeio taxis, caminhões, motos e que circulam constantemente pelas movimentadas ruas de Itapetininga.
E que dizer quando o transito não flui, causando enorme confusão, atordoando todos os condutores, pedestres, o próprio comércio e os residentes nestes locais. Qual seria a “opinião das artérias atingidas e oque comentariam a respeito disso?
O que comentar então quando as ruas presenciaram a morte de um conhecido cidadão, na Avenida Peixoto Gomide, assassinado por um jovem que se encontrava sentado com sua namorada em um banco daquela praça? E outro crime, abalando a cidade, quando um tiro de revolver prostrou morto, em um dos bares centrais, uma pessoa considerada na época, “audaciosa e violenta”? E, se por acaso a rua falasse, qual seria sua opinião a respeito daqueles dois jovens estudantes mortos após ingerirem venenos em plena rua? E o que comentariam elas sobre os vândalos que nelas jogam lixos e detritos, sem nenhum constrangimento.
E agora, quando se anuncia o tríduo carnavalesco, neste início de março, nas ruas, principalmente a Virgílio, a Campos Sales e a Júlio Prestes, atingindo o inesquecível Largo dos Amores, vão se recordar dos carnavais passados que fizeram a alegria dos itapetininganos. Porquanto, em parte deste extenso trecho (Rua Júlio Prestes) até o Largo dos Amores), blocos e cordões voltarão a desfilar e grande número de pessoas acompanharão a evolução dos participantes, garbosos e graciosos. As respectivas ruas, naturalmente, ouvirão os comentários, gritos e a alegria esfuziante daqueles inúmeros expectadores postados nas calçadas tomados por um frenesi intenso e borbulhante.
Todos recordarão, com imensa saudade, de outros carnavais, quando pelo mesmo trajeto desfilaram as Escolas de Samba, os vários carros alegóricos e os blocos Babo Grosso, Empenados, Bloco das Coisas, Vai quem Quer, Sami, Gaviões, Vila Nova, Piscina, além dos foliões solitários imitando Chaplin, palhaços, mulheres dominós e monstros.
Mas as ruas não falam, simplesmente ouvem as palavras que se perdem e se dissolvem no espaço.