Alberto Isaac

Alberto Isaac é jornalista professor e comerciante. Durante quarenta e cinco anos foi o correspondente do jornal “O Estado de São Paulo” em nossa região.

Dos carnavais que passaram, pouco restou

domingo, 26 de maio de 2019 por Alberto Isaac
Grupo de foliões itapetininganos fantasiados se divertindo no carnaval de rua de 1978 Grupo de foliões itapetininganos fantasiados se divertindo no carnaval de rua de 1978

Às vésperas de mais um colorido reinado da alegria, músicos e foliões trazem para a rua uma festa que já foi gloriosa. O carnaval, agora, não corresponde mais à expectativa do povo? Não contará, em Itapetininga, com o entusiasmo e a alegria daqueles que poderão prestigiar as festas momísticas? Já perdeu o interesse do povo diante da falta de criatividade e a ausência dos luxuosos carros alegóricos, cordões e escolas de samba, além dos graciosos foliões solitários percorrendo a avenida?
Enfim, para muitos, o carnaval deixou de ser a festa maior, tornando-se apenas mais um “feriadão”. Em razão, ou à vista disso, lembremos um pouco dos carnavais antigos desta cidade, que mobilizava multidões diante do luxo,criatividade, grandeza e empolgação, tornando-o um dos melhores do interior paulista.
Contamos, portanto, da década de 20 quando se realizavam os “corsos”, carros da época desfilando com lindas donzelas e robustos rapagões, em torno da Praça João Soares Hungria, denominada depois “Largo dos Amores”. Contamos que as ruas, principalmente do centro vital da cidade, cobriam-se de toneladas de confetes e serpentinas, permitindo a todos se atirarem no chão, imitando nadadores. Na periferia, Paquetá, Vila Aparecida e outros bairros, naqueles tempos considerados ainda distantes, se realizavam bailes com sanfona em plena rua, com foliões fantasiados.
Contamos que no Largo dos Amores (agora revitalizado e diferente), onde se concentrava a população, os bares, restaurantes como Primavera, São Paulo, Rodovia, do Alemão, Marabá, 80 lotavam de fregueses, a maioria fantasiada, alimentando-se e saboreando a popular cerveja Faixa Azul ou refrescos de abacaxi, limão, caipirinha ou Fogo Paulista.
E contamos que os clubes Venâncio, Operário (hoje o Recreativo), 13 de Maio, Sociedade Italiana e posteriormente Ginásio de Esportes, totalmente decorados, flamejavam com luzes multicores e as paredes pintadas com temas adequados de autoria de “craques da pintura”, como Maurão de Oliveira, o professor Xuxa (hoje residindo em Campinas), Milton Geminai, Duarte e outros especializados no ramo. Haviam os concursos para a escolha de Miss Carnaval, o melhor Bloco, o folião mais animado, a melhor fantasia, com valiosos prêmios.
Contamos que foliões nas ruas com exóticas fantasias provocavam risos e aplausos como Lazinho Franci, Roberto Guimarães, Roberto Matarazzo, Paulo Bittar, Aranha e outros. E as Escolas de Samba Aristocratas do Samba, o Bloco Imperador do Samba, junto com os blocos Empenados, Bloco das Coisas, Vila Isabel, Sol da Meia Noite, Avestruz, Peru, Babo Grosso, Frutos do Sistema, a Escola de Samba Brasil e Farrapos do Samba, Vai-Quem -Quer etc. Contamos as musas do carnaval como Ivone Lisboa, sempre presente no alto de sua majestade, magnífica e soberana em suas luxuosas e fulgurantes fantasias arrebatando o público embasbacado. Reinou durante muitos anos, assim também nos clubes locais. E contamos sobre uma das grandes personagens do tríduo momístico desta terra, a bela e inigualável Tereza Costa Pinto, a morena que arrebatava os corações dos jovens daqueles idos tempos. Porta Estandarte da “Aristocratas do Samba”, constituía-se em verdadeiro deslumbre a sua atuação com graça, beleza e simpatia. Citemos, além dos conjuntos musicais, as grandes orquestras locais: a Pan-Americana, a Venâncio Aires sob a regência de Edil Lisboa e Benedito Pompeu de Jesús, a Cruzeiro do Sul, dirigida por Caetano Ianaconi e a Esaú Costa Pinto, todos afinadas, perfeitas na execução das fabulosas marchinhas e sambas carnavalescos.
Vale lembrar-se do lança-perfume, inebriante que conduzia o folião ao mundo da ilusão paradisíaca naqueles dias enlouquecidos e o batalhão que se travava com o líquido, provocando correria e gritos de satisfação.
E vamos recordar, igualmente, dos foliões que cometiam atos proibidos ou inconvenientes e eram detidos e presos, na cadeia da rua Francisco Válio. Liberados, somente na quarta feira de Cinzas às 12 horas, eram aguardados por parentes e amigos que os recepcionavam, ouvindo gracejos e ironias pelo ocorrido. E poderíamos recordar também o recente”Festival do Buteco”, que há alguns anos fazia a alegria das famílias na Praça dos Amores, não mais será editado pela prefeitura
Mas nem tudo é cinza. Hoje, apesar de todos os problemas e da saudade dos velhos carnavais, ainda resistem alguns heróis e algumas agremiações. O Bloco imperador do Samba, brilhante bloco dirigido pelo guerreiro Mário, que neste ano desfilará como escola de samba ; a Escola de Samba Aristocratas do Samba, que completou 61 anos de resistência ; o “Bloco do Motumbo”, hoje associado ao velho “Avestruz”, que garante o divertimento da juventude e farão a festa no Clube dos Bancários, além do novo “Bloco dos Inconformados”, do Clube Venâncio Ayres.