Alberto Isaac

Alberto Isaac é jornalista professor e comerciante. Durante quarenta e cinco anos foi o correspondente do jornal “O Estado de São Paulo” em nossa região.

O natal e seus presentes, no passado e no futuro

domingo, 26 de maio de 2019 por Alberto Isaac

Como de costume, as árvores eram colocadas num canto da sala (sempre no lugar mais nobre para as visitas), qualquer que fosse a estrutura da casa: suntuosa, simples, ou bem modesta. Uma imitação das árvores, cedrinho ou tuia, levemente esverdeada com enfeites mais variados e agradando os olhos. Pendurados estavam enfeites diversos: bonequinhas, vidrinhos coloridos, numerosos Papais-Noéis, bijuterias, bolinhas brilhantes e tudo mais que a imaginação do proprietário criasse.
Eram os objetos do desejo sob as árvores de Natal, hábito mais arraigado em centros populosos do que nos distantes bairros, vilas, ou na vasta zona rural do município. Daquelas longínquas décadas de 30 até os dias atuais, a tradição natalina e as festas de final de ano continuaram ininterruptamente, mas as mudanças foram fortemente sentidas.
Enquanto nos sítios de bairros não se ornamentava de vistosos presépios ou atraentes árvores de Natal, nos centros urbanos as famílias se esmeravam em exibir esses ornamentos bem elaborados e cativantes, dentro dos ditames cristãos.
Nas ruas de Itapetininga, destacando-se sempre a rua Campos Sales, sobressaia-se o tema apresentado pela Padaria e Confeitaria de Emílio Nastri, quando em sua colorida vitrine era apresentado um Papai Noel, devidamente paramentado e montado em uma bicicleta elétrica, alegria das crianças e admiração dos adultos. Na mesma rua, próxima à Avenida Peixoto Gomide, a soberana e moderna Casa Armênia, também devidamente iluminada e decorada, funcionários da loja vestidos de Papai Noel, em plena calçada e com som musical, brincavam e procuravam atrair a atenção dos transeuntes que por lá passavam.
Os presentes iam dos singelos carrinhos de madeira, passando por bonecas, bolas de borracha ou de gude (às vezes de capotão), triciclos, bicicletas (principalmente a Caloi para os mais aquinhoados), trenzinhos ou vagões, além é claro, de roupas infantis.
A comerciante Irene Bicudo, hoje estabelecida no cinquentenário Mercadão, lembra que morando em Piedade, ainda pequena, ganhava “modesta boneca”, e enfrentava a fila em que a Prefeitura daquela localidade, distribuía, gratuitamente, doces e “alguns brinquedos”. O conhecido Arinei Scott (o Excelência), residindo na Campos Sales (onde seu pai trabalhava com calçados finos), tem saudade imensa daqueles tempos quando recebia como presente barquinhos de madeira e brincava na enxurrada, provocada pelas chuvas nas vias públicas.
Já o comerciante Zecaborba Soares Hungria e o advogado e historiador José de Almeida Ribeiro não esquecem, de maneira alguma, da época que ganhavam pouca “coisa de expressão”, mas suas famílias preparavam saborosos jantares, numa confraternização amistosa e verdadeiramente cristã. Ao mesmo tempo, a advogada Márcia Campos Bicudo lembra-se das bonecas e de outros brinquedos como o “Vai e Vêm”, o funcionário da Câmara Municipal João Ricardo da Silva Martins, exultava de alegria por ocasião de encontrar aos “pés da árvore de Natal” carrinho à pilha, o Forte Apache, um boneco do Falcon ou um corcelzinho movido à água. Ivan Barsanti, professor e agitador cultural, na infância recebia revistas Tico-Tico, o boneco Fofão e carrinhos. Recorda que sua pranteada mãe, D. Pasquina, preparava um delicioso bolo na véspera da chegada do Papai-Noel, e no dia seguinte ele desaparecia. “Foi Papai-Noel quem levou aquela delicia”, justificava sua mãe. Era para que Ivan continuasse a acreditar no Bom Velinho. Na verdade era promessa de D. Pasquina presentear alguma família necessitada, o que fez durante muitos anos.