Alberto Isaac

Alberto Isaac é jornalista professor e comerciante. Durante quarenta e cinco anos foi o correspondente do jornal “O Estado de São Paulo” em nossa região.

Sirene mobilizava 1.300 operários

domingo, 26 de maio de 2019 por Alberto Isaac
O imponente prédio, hoje desativado e relativamente abandonado, funcionou até o ano de 2006 O imponente prédio, hoje desativado e relativamente abandonado, funcionou até o ano de 2006

O aviso sonoro e prolongado facilmente alcançava toda a cidade de Itapetininga, de norte a sul, em sua quietude matinal. Era o horário sagrado para muitos acordarem, não só para a labuta diária, como também alertando os jovens estudantes que frequentavam as escolas locais. Como hoje lembra a comerciária Érica Dias Batista, que naquela época frequentava a escola “Fernando Prestes”, e de sua residência, na Vila Orestes, acordava para ir às aulas.

Mas, além desse aviso, agudo e também agradável, ele era destinado especialmente aos briosos trabalhadores da “Magister”, imponente fábrica de confecções, um dos orgulhos desta terra, na atual Cel. Pedro Dias Batista, esquina com a rua Rodolfo Miranda Leonel, antigo terreno pertencente a João Neponuceano.

Um prédio adaptado para a indústria, com trabalhadores exclusivamente itapetininganos, fabricava com esmero e perfeição ternos, camisas, calças e notadamente fardas militares não só para todas as unidades do Exército Brasileiro nos Estados, como jaquetas e outros acessórios destinados aos EUA , Angola e África do Sul.

Foi o empreendedor, empresário Sylvio Arap, da capital paulista, depois radicado neste município que ajudou a desenvolver, quem a instalou modernamente, isto no distante 1964, ano marcado pela implantação do regime militar no país , que se prolongou por 21 longos anos. Antes a fábrica pertencia ao uruguaio Jayme Sapiro, funcionando com poucas máquinas, com produção diminuta das famosas calças de tecido tergal. Como funcionários viajantes integravam, entre outros, Ethiel Wey, o saudoso Caboclinho e o futebolista do craque, o lembrado Liceu, falecido recentemente.

O prédio, hoje desativado e relativamente abandonado, funcionou até 2006, estando em atividades similares na rua Alfredo Maia. Trabalhavam na empresa mais de 1.300 operários, em três turnos, quando toda cidade ouvia o som do aparelho que despertava a população.

A edificação foi construída na década de 1950, onde então se encontrava em atividade o fidalgo “Cine Aparecida do Sul”, cujo nome foi escolhido através de consulta popular aoss moradores daquela área, para homenagear à Padroeira do Brasil, e, outro motivo, por residir grande número de italianos e descendentes daquele país europeu na região. Tanto que, lá cresceu e desenvolveu-se o Jardim Itália, um dos mais famosos e adiantados loteamentos da cidade.

O cinema, segundo Roberto Duarte, descendente da família Duarte, estabelecida em Itapetininga com armazém atacadista na rua Quintino Bocaiúva com a José Bonifácio, foi festivamente inaugurado com a exibição da premiada película francesa “O Salário do medo”, estrelado por Ivens Montand e grande elenco. Foi classificado de alto luxo e comparado com os melhores cinemas existentes na capital paulista.

Foi palco de grandes espetáculos teatrais e musicas, lembrando-se, até hoje, das homenagens prestadas ao cantor itapetiningano Almir Ribeiro, morto tragicamente em Punta Del Leste, no Uruguai. Hoje o prédio, abandonado, sobrevive no esquecimento de toda população, ignorando-se seu destino num futuro não tão próximo. O grupo Sylvio Arap adquiriu a enorme construção da Cia. Continental de Automóveis.